Defensor da eugenia foi o adjetivo mais brando
que ouviu então. Um telejornal chegou a colocar
sua foto ao lado da de Hitler. Para comentar o
caso de Watson, a Folha foi ouvir Murray, hoje um
dos acadêmicos do conservador American Entreprise
Institute, em Washington. Na longa entrevista por
telefone, ele concorda com o ponto central do
argumento do Nobel, defende a superioridade
intelectual dos judeus e diz que a ação
afirmativa será “uma desgraça” para o Brasil. A
polêmica continua.
*
FOLHA – Para começar, o sr. concorda com o que
James Watson disse sobre os negros?
CHARLES MURRAY – Com o quê, exatamente?
FOLHA – Ele disse que era pessimista com o futuro
da África pois “todas as nossas políticas sociais
são baseadas no fato de que a inteligência deles
[negros] é igual à nossa, apesar de todos os
testes dizerem que não”.
MURRAY – Concordo. Não há discussão sobre o que
os testes de inteligência dizem. Existem dados
vindos de muitos países africanos e de diversos
testes, inclusive alguns sem perguntas culturais,
e estudos feitos por psicólogos negros, não são
só pessoas brancas. E os resultados são muito
confiáveis: ao longo dos países da África
Sub-Sahariana, são extremamente baixos. Pode-se
discutir é o que isso significa, mas os números
são realmente baixos.
FOLHA – Ele disse que “pessoas que já lidaram com
empregados negros não acreditam que isso [a
igualdade de inteligência] seja verdade” e que
“há muitas pessoas de cor muito talentosas, mas
não os promova quando eles não tiverem sido
bem-sucedidos nos níveis mais baixos”.
MURRAY – Trabalho com empregados negros
maravilhosos, e esse não é o tipo de prova que
faça eu me preocupar com as diferenças de
habilidade intelectual entre negros e brancos.
Foi uma frase injusta da parte dele. Mas concordo
com a segunda parte. Que você não promova pessoas
só porque eles são membros de um grupo em
desvantagem, o que é um problema nos EUA. Nós
temos leis de ação afirmativa, que dá incentivos
a empregadores para dar tratamentos especiais e
favoráveis para negros. É uma política terrível.
Para todos: para os negros, para os brancos, e
pior ainda para as relações entre negros e
brancos.
FOLHA – Ele disse que “não há uma boa razão para
crer que as capacidades intelectuais de pessoas
geograficamente separadas evoluam de maneira
idêntica”.
MURRAY – Absolutamente correto. Os seres humanos
evoluem diferentemente de todo tipo de maneira em
partes diferentes do mundo. A ciência atual está
ao lado de Watson. Costumava-se dizer que os
seres humanos eram tão parecidos geneticamente,
com 99,6% de genes idênticos, que não poderia
haver diferenças importantes. Ouvíamos frases
como “Não houve tempo suficiente desde que os
humanos deixaram a África para que tenham se
desenvolvido diferentemente”.
Pois a ciência está nos dizendo claramente nos
últimos anos que, ainda que o ser humano tenha a
mesma imensa maioria de genes, aquele número
comparativamente pequeno que difere pode produzir
diferenças muito grandes entre grupos. Quanto à
probabilidade de ter certas doenças, por exemplo,
como a Doença de Tay-Sachs nos judeus ou a anemia
falciforme nos negros. Certamente afeta a
aparência física e não há razão para pensar que
não tenha havido pressões evolucionárias
diferentes em relação à habilidade intelectual.
Não sabemos ainda se é verdade, mas certamente
não há nenhuma razão para pensar que não é
verdade.
FOLHA – Como o sr. sabe, ele foi chamado de
racista e teve de se aposentar. O sr. sofreu
acusação semelhante.
MURRAY – O erro de Watson foi falar informalmente
com um repórter sobre essas questões. O primeiro
artigo que ele escreveu, que causou tanto
problema, não tinha algumas das frases que você
me leu. Elas vieram de uma entrevista posterior.
Você vê a diferença entre o que foi escrito para
o artigo, cuidadoso, preciso e acurado. Ele disse
coisas na entrevista, como aquilo sobre
empregados negros, que não deveria ter falado,
cometeu um grande erro. Dito isso, a reação do
Museu de Ciências de Londres, que cancelou sua
conferência, e do Laboratório Cold Spring Harbor,
que o demitiu, são uma desgraça.
FOLHA – Desgraça?
MURRAY – Afinal, o homem está discutindo uma
questão intelectual polêmica. É isso o que a
ciência deve fazer. Dizer que você não pode lidar
com isso e que há algumas coisas que estão fora
da jurisdição é simplesmente ridículo!
Especialmente quando essa questão específica tem
um corpo muito sério de estudos científicos
conduzidos. Eles não nos dão todas as respostas,
mas tornam a questão extremamente legítima.
FOLHA – O sr. compara a reação a Watson agora à
que o sr. teve 13 anos atrás?
MURRAY – Bem, as coisas ficaram realmente
complicadas depois que lançamos “The Bell Curve”.
As resenhas, na maioria das vezes, interpretavam
nossa posição de maneira completamente errada,
fomos chamados de racistas, intolerantes,
programas noticiosos falavam do livro com a
fotografia de Hitler e de “Mein Kampf” lado a
lado. Foi muito desagradável. Mas havia uma
diferença: eu era empregado pelo American
Entreprise Institute, que realmente acredita em
diálogo intelectual livre.
Não há nada em “The Bell Curve” que beneficie meu
empregador, pelo contrário. Inteligência não tem
nada a ver com o tipo de pesquisa de política
pública que a maioria das pessoas onde trabalho
faz. Mas o instituto me amparou sem piscar, sem
ficar na defensiva. É uma grande ironia: ao
trabalhar num “think tank” que muitos acreditam
ser politizado eu tenho muito mais liberdade
intelectual nos EUA hoje do que se fosse de
Harvard ou Stanford ou em qualquer outra grande
universidade ou mesmo na Cold Spring Harbor.
Esses lugares bloquearam seu desejo de encorajar
diálogo intelectual livre.
FOLHA – No livro de 1994, o sr. argumentava que
aqueles com alta inteligência, que batizou de
“elite cognitiva”, estavam se descolando da
população em geral, e que aquela era uma
tendência social perigosa. Mais de uma década
depois, o que aconteceu?
MURRAY – Parece que os próximos 15 anos foram
especialmente planejados para provar que
estávamos certos. Todas as tendências de
isolamento aumentaram. Toda vez que você lê uma
reportagem sobre o aumento da desigualdade
econômica, por exemplo, pergunte-se por quê e se
lembre da tese de “The Bell Curve”: são os
cérebros! Não só educação, mas cérebros estão se
tornando cada vez mais valiosos no mercado de
trabalho.
Veja o que aconteceu com a internet e a rapidez
com que surgiram milhares de pessoas muito ricas.
E qual era a base de sua riqueza? Suas
habilidades intelectuais, que o capacitaram a
operar nesse ambiente extremamente intelectual
chamado ciência de computação. Veja o aumento da
competição baseada em habilidades intelectuais
por vagas em Harvard, Princeton, Stanford. Você
pode fazer uma longa lista de desenvolvimentos
desde 1994 e todos apontarão para uma
estratificação cognitiva maior, assim como uma
separação e isolamento maiores. É preocupante.
FOLHA – O sr. acaba de escrever um texto em que
defende que judeus são mais inteligentes que o
resto, que têm QI maior. Isso não é racismo ao
contrário?
MURRAY – [Risos] A questão de por que os judeus
têm uma inteligência média maior do que as outras
pessoas é fascinante e ainda não muito clara, mas
a explicação principal tem de ser genética. Digo
“tem de ser” porque há muitas provas
circunstanciais. Por exemplo: há muitas doenças
que afetam mais judeus do que não-judeus,
especificamente os asquenazes. Essas doenças são
também associadas a formas de desenvolvimentos
neurológicos que são compatíveis com maior
capacidade do cérebro.
Não é definitivo, mas há uma tese muito plausível
segundo a qual as mesmas mudanças genéticas que
criam esses problemas nos judeus também ajudam a
aumentar seu QI. Outra explicação deve ser
considerada: a religião é muito exigente
intelectualmente. Você tem de saber ler textos
complicados, dominar o Torá e o Talmude, ambos
muito difíceis, e ser capaz de ler em público, se
você é do sexo masculino. Tudo isso significa que
ser judeu é difícil. Com o passar dos séculos,
pessoas intelectualmente incapazes de fazer isso
devem ter acabado deixando a fé. Tenho de
enfatizar que não sabemos com certeza, são só
hipóteses interessantes.
FOLHA – Seu outro texto recente defende o fim dos
SATs [testes que supostamente medem o
conhecimento do recém-formado no segundo grau e
que são determinantes para universidades
norte-americanas aceitarem seus novos alunos].
Por quê?
MURRAY – O problema não é o teste em si. Com o
passar do tempo e com a estratificação cognitiva,
o resultado é que mais e mais estudantes que têm
os melhores resultados nos SATs vêm de famílias
de classe média alta. Não é porque eles fazem
cursinho, é porque são filhos de pais mais
inteligentes _que por isso chegaram à classe
média alta. E eles passaram a seus filhos suas
próprias habilidades intelectuais e também deram
um bom ambiente para desenvolvimento.
Então, há cada vez menos lugar para as pessoas
das partes mais baixas da sociedade,
economicamente falando, que são esses diamantes
em estado bruto, que só precisam de uma chance
para mostrar seu talento. Não quero exagerar:
ainda há muita criança realmente inteligente
vinda de lares operários nos EUA, mas não tanto
quanto antes, e isso é resultado de três gerações
de meritocracia sendo muito eficientes.
FOLHA – Debate-se no Brasil agora os prós e
contras da ação afirmativa. Qual sua posição?
MURRAY – Primeiro, deixe-me dizer que não conheço
nem estive no Brasil. Mas a reputação do país é a
de que as relações entre pessoas de diferentes
etnias sempre foi boa. Vocês se apresentam como
um país que não é obcecado com a questão negros
versus brancos, como são os EUA. Se isso é
verdade, a ação afirmativa é a melhor maneira
possível para destruir essa vantagem.
Se vocês querem garantir que os brasileiros
comecem a se odiar, odiar talvez seja uma palavra
muito forte, mas estranhar um ao outro como nunca
antes aconteceu, criar divisões, então a melhor
receita é implantar a ação afirmativa. Funciona
maravilhosamente para criar ressentimento. Se
você tenta ajudar os negros, os brancos vão
dizer: “Espere, se eu tenho a mesma habilidade e
um processo seletivo justo, porque alguém deve
ter vantagem em relação a mim por conta da cor de
sua pele?.”
Ao mesmo tempo, prejudica as pessoas que estão
supostamente sendo ajudadas, no caso os negros.
Toda vez que eles vão trabalhar, por exemplo,
todas as pessoas brancas daquele escritório
presumirão que eles conseguiram o emprego porque
são negros. A presunção é: provavelmente essa
pessoa não é tão capaz quanto nós porque
conseguiu esse emprego por ação afirmativa. É uma
idéia terrível! Sei pouco sobre o Brasil, mas sei
muito sobre os EUA e a ação afirmativa em outros
países. Eu imploro aos brasileiros: não façam
isso.
FOLHA – Uma última provocação: voltando ao começo
da entrevista, o sr. diria que o judeu Paul
Wolfowitz [ex-presidente do Banco Mundial, um dos
arquitetos da Guerra do Iraque] e o negro Nelson
Mandela são exceções que explicam sua regra?
MURRAY – [Risos] Wolfowitz é incrivelmente
inteligente. Não se deve tirar conclusões sobre
sua capacidade baseado só nos problemas no
Iraque. Ele não gerencia bem, o que a experiência
no Banco Mundial deve ter mostrado a ele próprio.
Ser um bom gerente exige outros talentos além de
QI alto. Então ele não é a exceção que prova a
regra.
Já Nelson Mandela, extremamente capacitado
intelectualmente, certamente prova a regra que
você não deve julgar baseado em raça. Se ele
estiver sentando em frente a você, você não vai
se preocupar no QI médio dos negros, você vai
pensar em Nelson Mandela. Mas seu maior talento,
mesmo ele sendo muito inteligente, é liderança,
integridade e coragem. Habilidade intelectual é
importante, não há dúvida, não deveríamos tentar
negar. Mas é essa teia complicada de habilidades
que faz pessoas bem-sucedidas profissional e
pessoalmente.
A polêmica, passo a passo
1. Em 14 de outubro, JAMES WATSON deu uma
entrevista à revista dominical do jornal londrino
“Sunday Times” em que se dizia “pessimista” sobre
o futuro da África pois as políticas sociais para
o continente eram baseadas no fato de que a
inteligência dos negros é igual à dos brancos,
“apesar de todos os testes dizerem que não”,
entre outras declarações racistas
2. Ganhador do Prêmio Nobel de Medicina de 1962
por ser um dos descobridores da estrutura do DNA
em 1953, o biólogo molecular norte-americano de
79 anos é conhecido no meio acadêmico por suas
opiniões polêmicas, o que lhe valeu o apelido de
“Honest Jim”;
3. Ele já havia defendido posição semelhante às
declarações dadas ao jornal no livro “Avoid
Boring People” (Evite Pessoas Chatas, Random
House, recém-lançado);
4. Centenas de cientistas no mundo inteiro
escreveram artigos ou se manifestaram a respeito
das opiniões de Watson, a maioria contrária a
elas; o Museu de Ciências de Londres e a
Universidade de Edimburgo cancelaram conferências
que ele daria naquela semana; o laboratório de
Cold Spring Harbor o demitiu; o cientista se
desculparia e se retrataria em pelo menos dois
artigos posteriores;
5. Co-autor do polêmico livro “The Bell Curve” (a
curva do sino, 1994), em que escreve entre outras
coisas que brancos se saem melhor que negros em
testes de inteligência, o cientista político
CHARLES MURRAY é um dos únicos até agora a vir a
público defender algumas posições de Watson
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